Não há um dia que eu não me pergunte se deveria continuar publicando meus textos, já que não escrever não é uma opção; uma vez que o mundo, ao menos como conhecemos, está se acabando.
Se tudo vai desaparecer: há motivos para ter esperança?
A escritora Mariana Brecht diz que é importante que nós construamos um imaginário de um mundo pós crise climática e que ainda estaremos aqui. As distopias, invasões, o pior já faz parte do nosso imaginário coletivo. Mas como nós poderemos sobreviver se não construirmos em nossas mentes um lugar que é possível sobreviver?
Certamente o que nos trouxe até aqui não será o que nos tirará desse abismo.
Na época da faculdade, a professora de realismo costumava chamar essa não esperança de teoria da burguesia decadente. Nós somos muito mais velhos que imaginamos, e estamos aqui. Por mais que o desafio possa ser difícil de ser superado, nós vamos vivê-lo, não vamos? Como não pensar que isso é também uma estratégia do sistema, que para mim é vivo, como um vírus que tem destruído seu hospedeiro, mas não se importa dos dois morrerem, e esse sistema usa essa estratégia colocando em nossa mente que não há saída, que estamos caminhando para o fim.
É claro que também me bate uma insegurança: será que estou no caminho certo? Será que existe algum talento dentro de mim para escrever, e mais, para sonhar em escrever um futuro diferente de uma história distópica?
Talvez você se identifique comigo, pois, por mais que eu me eduque, no sentido de que preciso aprender a não me comparar com outras pessoas, somente nós conseguimos conhecer a nossa própria história. Sempre haverá alguém melhor, ou pior; precisamos encontrar nosso caminho, nossa história e nossos talentos.
Não há uma resposta, nem todo mundo vai ser o melhor do mundo naquilo que faz. Outro dia, vi um vídeo que me chamou a atenção, quase um anti-coaching, dizendo que se você não tem determinados talentos ou oportunidades, você nunca vai ser o vencedor — por exemplo, por mais que eu me dedicasse, todos os dias, arremessando bolas de basquete, com 1,70 m eu não teria nenhuma chance nesse esporte. Todavia, no vídeo ele traz a esperança de que cada pessoa pode ser a melhor do mundo em alguma coisa. E sim, posso até concordar, mas o sistema em que vivemos valoriza somente determinadas coisas, e não as infinitas possibilidades em que cada um poderá exercer o seu melhor.
Nos resta nos adaptarmos. O mundo não será como antes. O mundo já não é mais o mesmo desde a pandemia de 2020. Mas nós ainda somos nós. Nós ainda podemos sentir gratidão. Talvez aquilo em que sejamos os melhores do mundo não valha um centavo. Talvez precisemos ser apenas ok, ter um emprego ok e uma vida ok — mas sempre olhando para dentro de nós, para ver aquela chama que deseja ser a melhor do mundo em algo, no nosso algo, o algo que nos aproxima da Perfeição.